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Crise sistémica global: Cessação de pagamentos do governo americano no Verão de 2009

por GEAB [*]
Por ocasião do aparecimento do GEAB Nº 28, o LEAP/E2020 decidiu lançar um novo alerta no quadro da crise sistémica global pois nossos investigadores consideram que no Verão de 2009 o governo americano estará em cessação de pagamentos e não poderá portanto reembolsar seus credores (detentores de Títulos do Tesouro dos EUA, títulos da Fanny Mae e do Freddy Mac, etc). Esta situação de bancarrota evidentemente terá consequências muito negativas para o conjunto dos proprietários de activos denominados em dólares dos EUA. Segundo a nossa equipe, o período que então se abrirá tornar-se-á propício ao lançamento de um “novo dólar” destinado a remediar brutalmente o problema da cessação de pagamentos e da fuga maciça de capitais fora dos Estados Unidos. Este processo decorrerá dos cinco factores seguintes que são analisados mais em pormenor no GEAB Nº 28.

1- A evolução recente, em alta, do dólar é uma consequência directa e provisória da queda das bolsas mundiais

2- O “baptismo político” do euro acaba de ter lugar dando uma alternativa “de crise” ao dólar, enquanto “valor refúgio” crível

3- A dívida pública americana incha de maneira doravante incontrolável

4- O colapso em curso da economia real dos Estados Unidos impede toda solução alternativa à cessação de pagamentos.

5- “Forte inflação ou hiper-inflação nos Estados Unidos em 2009″, esta é a única questão.

Mas já se pode ter uma ideia da evolução que se aproxima examinando a Islândia, que a nossa equipe acompanha à lupa desde o princípio de 2006. Este país constitui com efeito um bom exemplo do que espera os Estados Unidos, e igualmente o Reino Unido. Pode-se considerar, tal como bom número de islandeses hoje, que o colapso do sistema financeiro foi provocado pelo facto de estar super-dimensionado em relação ao porte da economia do país.

A Islândia, em matéria financeira, deixou-se dominar pelo Reino Unidos [1] . Como em matéria financeira o próprio Reino Unidos foi dominado pelos Estados Unidos e como os Estados Unidos estão dominados por todo o planeta, não é inútil meditar no precedente islandês [2] para apreender o rumo dos acontecimentos dos próximos doze meses em Londres e em Washington [3] .

Com efeito, assistimos actualmente a um duplo fenómeno histórico:

- por um lado, desde o mês de Setembro de 2008 (como anunciado no GEAB Nº 22, de Fevereiro de 2008), o conjunto do planeta doravante está consciente da existência de uma crise sistémica global caracterizada por um colapso do sistema financeiro americano e seu contágio ao resto do planeta.

- por outro lado, actores mundiais cada vez mais numerosos tratam de agir por si mesmos diante da ineficácia das medidas preconizadas ou adoptadas pelos Estados Unidos, apesar de este ser o centro do sistema financeiro mundial desde há décadas. O exemplo da 1ª Cimeira da Eurolândia (ou Eurozona ), que se verificou domingo 12 de Outubro de 2008 e cujas decisões, pela sua amplitude (cerca de 1.700 mil milhões de euros) e sua natureza [4] , permitiram um retorno da confiança nos mercados financeiros de todo o planeta, é a este respeito inteiramente exemplar do “mundo pós Setembro de 2008″.

Pois há certamente um “mundo pós Setembro de 2008″. Para a nossa equipe, doravante é evidente que este mês ficará nos livros de história de todo o planeta como aquele “a datar” o desencadeamento da crise sistémica global; mesmo se não se tratar de facto senão da fase de “decantação”, a última das quatro fases desta crise identificada desde Junho de 2006 por LEAP/E2020 [5] . Como acontece sempre nos grandes conjuntos humanos, a percepção da mudança pela maioria não se verifica senão quando a mudança já está de facto bem avançada.

No caso presente, Setembro de 2008 marca a grande explosão do “detonador financeiro” da crise sistémica global. Segundo LEAP/E2020, este segundo semestre de 2008 é com efeito o momento em que “o mundo mergulha no coração da fase de impacto da crise sistémica global” [6] . Isto quer dizer que no fim deste semestre, segundo os nossos investigadores, o mundo entre na fase dista de “decantação” da crise, ou seja, a fase em que se vêem as consequências do choque aparecerem. É de facto a fase mais longa da crise (entre três e dez anos, conforme o país) e aquela que vai afectar directamente o maior número de pessoas e de países. É a etapa igualmente em que se delinearão os componentes dos novos equilíbrios mundiais dos quais LEAP/E2020 apresenta duas primeiras ilustrações gráficas neste GEAB Nº 28 [7] .

Assim, como temos repetido reiteradas vezes desde 2006, esta crise é muito mais importante, em termos de impacto e de consequências, que aquela de 1929. Historicamente, todos nós somos os primeiros actores, testemunhas e/ou vítimas, de uma crise que afecta todo o planeta, com um grau de interdependência sem precedentes dos países (devido à globalização destes últimos vinte anos) e das pessoas (o grau de urbanização, e portanto de dependência para as necessidades básicas – água, alimentação, energia, … – é hoje sem antecedentes na História). Entretanto, o precedente dos anos 1930 e suas terríveis consequências destruidoras parece bem presentes nas memórias colectivas para nos permitir, se os cidadãos forem vigilantes e os dirigentes lúcidos, evitar uma repetição conducente a uma (ou várias) grande(s) conflagração(ões).

Europa, Rússia, China, Japão, … constituem sem nenhuma dúvida os actores colectivos com poderes para assegurar que a implosão em curso da potência dominante destas últimas décadas, ou seja, os Estados Unidos, não conduza o planeta a uma catástrofe. Com efeito, com excepção da URSS de Gorbachov, os impérios têm tendência a tentar inutilmente inverter o curso da História quando sentem seu poder entrar em colapso. Cabe às potências parceiras canalizar pacificamente o processo, assim como aos cidadãos e elites do país afectado fazer prova de lucidez para enfrentar o período muito penoso que se prepara.

A “reparação de emergência” dos canais financeiros internacionais, realizada sobretudo pelos países da zona euro neste princípio do mês de Outubro de 2008 (8), não deve mascarar três factos essenciais:

– esta “reparação de emergência”, necessária para evitar um pânico que ameaçava engolir todo o sistema financeiro mundial em poucas semanas, não trata provisoriamente senão um sintoma. Ela não faz senão ganhar tempo, dois ou três meses no máximo, pois a recessão global e o colapso da economia americana (o gráfico acima mostra o crescimento vertiginoso dos fundos emprestados aos bancos americanos pela Reserva Federal) vão acelerar-se e criar novas tensões económicas, sociais e políticas é preciso tratar antecipadamente no próximo mês (uma vez executados os “pacotes financeiros”).

– mesmo se fosse absolutamente necessário por em andamento o sistema de crédito, os gigantescos meios financeiros consagrados por todo o planeta às “reparações de emergência” do sistema financeiro mundial serão meios que não poderão ser postos à disposição da economia real no próximo mês para enfrentar a recessão global

– a “reparação de emergência” constitui uma marginalização, e portanto um enfraquecimento suplementar dos Estados Unidos, pois ela estabelece processos contrários àqueles louvados por Washington para os US$700 mil milhões do TARP de Hank Paulson e Bernanke: uma recapitalização dos bancos pelos governos (decisão que Hank Paulson é agora obrigado a seguir) e uma garantia dos empréstimos interbancários (de facto, os governos da Eurolândia substituem-se aos seguradores de créditos, uma indústria no cerne das finanças mundiais e essencialmente americana desde há décadas). Estas evoluções afastam sempre mais ligações decisionais e fluxos financeiros para fora da órbita americana num momento em que a economia dos Estados Unidos e a explosão da sua dívidas pública (9) e privada teriam sido precisas mais do que nunca; sem sequer falar das pensões dos aposentados que se evolam em fumos [10] .

Este último ponto ilustra como, no próximo ver, as soluções para a crise e as suas diferentes sequencias (financeira, económica, social e política) vão divergir cada vez mais: aquilo que é bom para o resto do mundo não o será para os Estados Unidos [11] e doravante, com a Eurolândia à cabeça, o resto do mundo parece determinado a fazer suas próprias opções.

O choque brutal que gerará a cessação de pagamentos dos Estados Unidos no Verão de 2009 é em parte uma consequência deste desatrelamento decisional das grandes economias do mundo em relação aos Estados Unidos. É previsível e talvez seja amortecido se o conjunto dos actores começar desde já a antecipar; é aliás um dos temas desenvolvidos neste GEAB Nº 28. O LEAP/E2020 espera apenas que choque de Setembro de 2008 tenha “educado” os responsáveis políticos, económicos e financeiros do planeta a fim de compreenderem que se age melhor por antecipação do que na emergência. Seria danoso que a Eurolândia, a Ásia e os países produtores de petróleo, assim como os cidadãos americanos, descobrissem brutalmente no decorrer do Verão de 2009, depois de um fim de semana prolongado ou de um encerramento administrativo dos bancos e das bolsas no território americano durante vários dias, que os seus Títulos do Tesouro dos EUA e seus dólares não valem mais do que 10% do seu valor pois um “novo dólar” acaba de ser instaurado [12] .

Notas:

[1] A Islândia adoptou desde há mais de 10 anos todos os princípios da desregulamentação e da financiarização da economia que foram desenvolvidos e aplicados nos Estados Unidos e no Reino Unido. Reykjavik tornara-se uma espécie de “Mini-Me” financeiro de Londres e Washington, tal como o personagem do filme muito americano-britânico de Austin Powers. E os três países tentaram actuar financeiramente como “o sapo que quer se tornar tão grande quanto o boi” , como na fábula de Jean de la Fontaine cujo fim é fatal para o sapo.

[2] Assim a bolsa islandesa entrou num colapso de 76% depois de ter sido encerrada alguns dias a fim de “evitar” o pânico! Fonte: MarketWatch , 14/10/2008

[3] A este respeito, examinemos de perto o montante do “pacote financeiro” anunciado por Londres, ou seja, €640 mil milhões dos quais €64 mil milhões para recapitalizar os bancos e €320 mil milhões para suportar as dívidas a médio prazo destes mesmos bancos (fonte: Financial Times, 09/10/2008). Com uma economia em queda livre à semelhança do mercado imobiliário, uma inflação galopante, fundo de capitalização para pensões que se desvanecem em fumo e uma moeda no seu ponto mais baixo, além de aumentar a dívida pública e enfraquecer ainda mais a libra, vê-se mal como isso pode “salvar” bancos britânicos já em má situação. Ao contrário dos bancos dos países da maior parte da zona euro, o sistema financeiro britânico, tal como seu homólogo americano, está no cerne da crise, e não como uma vítima colateral. Gordon Brown pode bem comparar-se a Churchill e Roosevelt somados (fonte: Telegraph, 14/10/2008), mas com o seu evidente desconhecimento da História, ele esquece que nem Churchill nem Roosevelt haviam passado 10 anos nos comandos dos seus países quando tiveram de enfrentar as suas respectivas “grande crise” (isso vale aliás para os Estados Unidos e a administração Bush – Paulson e Bernake incluídos – que vêm todos “do problema” e portanto pouco provavelmente fazem parte “da solução”). Sem contar que Roosevelt e Churchill organizavam cimeiras como Yalta ou Teerão deixando franceses e alemães à porta, ao passo que foi ele que teve de permanecer à porta da Cimeira da Eurolândia.

[4] Fonte: L’Express , 13/10/2008

[5] Fonte GEAB N°5 , 15/05/2006

[6] Fonte: GEAB N°26 , 15/06/2008

[7] LEAP/E2020 apresenta assim uma síntese das suas antecipações sobre a fase de decantação da crise graças a um mapa mundial do impacto da crise diferenciando entre seis grandes grupos de países; assim como um calendário antecipativo 2008-2013 das quatro sequências financeira, económico, social e político para cada uma destas regiões.

[8] Pois foi a zona euro, a Eurolândia, que permitiu travar a espiral de pânico global. Desde há semanas, as iniciativas americanas e britânicas não têm tido efeito. É a irrupção de um novo actor colectivo, a “cimeira da Eurolândia” e suas decisões de envergadura que constituiu o fenómeno novo e reconfortante. Trata-se aliás de um novo actor que Washington e Londres impediram sistematicamente de emergir desde o lançamento do euro há seis anos. E foi preciso toda uma preparação diplomática (reunião prévia, foto de grupo antes da cimeira, …) para permitir ao primeiro-ministro britânico fazer crer que ele não estava marginalizado neste processo, quando ele não pertence de facto às cimeiras da zona euro. Neste GEAB Nº 28, o LEAP/E2020 reexamina este fenómeno e as consequências sistémicas duráveis da efectivação da 1ª cimeira d Eurolândia.

[9] O plano de salvamento financeiro americano já acrescentou US$17 mil à dívida de cada americano. Fonte: CommodityOnline , 06/10/2008

[10] Foram com efeito US$2 milhões de milhões de pensões por capitalização que desapareceram em fumo nos Estados Unidos nestas últimas semanas. Fonte: USAToday, 08/10/2008

[11] Pelo menos a curto prazo. Pois nossa equipe está convencida de que para o povo americano, a médio e longo prazos, não é mau de todo que o sistema dominante em Washington em Nova York seja posto em causa no fundamental. Foi efectivamente este sistema que mergulhou estes país nos problemas dramáticos em que dezenas de milhões de americanos hoje se debatem, como ilustra perfeitamente este artigo do New York Times de 11/10/2008.

[12] Mesmo que seja uma medida de pouca amplitude em relação à perspectiva de cessação de pagamentos dos Estados Unidos, aqueles que pensam que é tempo de reinvestir nos mercados financeiros podem considerar útil saber que o New York Stock Exchange acaba de rever todos os seus patamares de interrupção das cotações por causa da queda demasiado forte das mesmas. Fonte: NYSE/Euronext , 30/09/2008

15/Outubro/2008

[*] Global Europe Anticipation Bulletin

O original encontra-se em www.leap2020.eu/

Este comunicado encontra-se em http://resistir.info/ .

 
Crise sistémica global: Novo ponto de inflexão em Março de 2009

 

— ‘quando o mundo tomar consciência de que esta crise é pior que a dos anos 1930′

por GEAB [*]


O LEAP/E2020 prevê que em Março de 2009 a crise sistémica global venha a experimentar um novo ponto de inflexão de uma importância análoga ao de Setembro de 2008. Nossa equipe considera com efeito que este período do ano de 2009 será caracterizado por uma tomada de consciência geral da existência de três importantes processos desestabilizadores da economia mundial, a saber:

1. A tomada de consciência da longa duração da crise
2. A explosão do desemprego no mundo inteiro
3. O risco do colapso brutal do conjunto dos sistema de pensão por capitalização.

 

Este ponto de inflexão será assim caracterizado por um conjunto de factores psicológicos, a saber: a percepção geral pelas opiniões públicas na Europa, na América e na Ásia de que a crise em curso escapou ao controle de qualquer autoridade pública, nacional ou internacional, que ela afecta severamente todas as regiões do mundo ainda que algumas sejam mais afectadas do que outras (ver GEAB Nº 28), que ela atinge directamente centenas de milhões de pessoas no mundo ‘desenvolvido’ e que ela não faz senão pior à medida em que as consequências se fazem sentir na economia real. Os governos nacionais e as instituições internacionais têm apenas um trimestre para se prepararem para este situação que potencialmente é portadora de um risco importante de caos social. Os países menos bens equipados para gerir socialmente a ascensão rápida do desemprego e o risco crescente sobre as reformas serão os mais desestabilizados por este tomada de consciência das opiniões públicas.

 

Neste GEAB Nº 30, a equipe do LEAP/E2020 pormenoriza estes três processos desestabilizadores (dois dos quais são apresentados neste comunicado público) e apresenta as suas recomendações para enfrentar este aumento dos riscos. Além disso, este número faz também, como todos os anos, uma avaliação objectiva da fiabilidade das antecipações do LEAP/E2020, que permite precisar igualmente certos aspectos metodológicos do processo de análise que executamos. Em 2008, a taxa de êxito do LEAP/E2020 é de 80%, com uma ponta de 86% para as antecipações estritamente sócio-económicas. Para um ano de grandes perturbações, é um resultado de que estamos orgulhosos.

Como pormenorizámos no GEAB Nº 28 , a crise afectará de maneira diversificada as diferentes regiões do mundo. Contudo, e o LEAP/E2020 deseja ser muito claro acerca deste ponto, ao contrário dos discursos actuais dos mesmos peritos que negavam a existência de uma crise em gestação há três anos, que negavam que ela fosse global há dois anos e que negavam há apenas seis meses que ela seja sistémica, nos antecipámos uma duração mínima de três anos para esta fase de decantação da crise [1] . Ela não estará terminada nem na Primavera de 2009, nem no Verão de 2009, nem no princípio de 2010. É só nos fins de 2010 que a situação começará a se estabilizar e a melhorar um pouco em certas regiões do mundo, a saber na Ásia e na zona Euro, assim como para os países produtores de matérias-primas energéticas minerais ou alimentares [2] . Alhures, ela continuará. Em particular nos Estados Unidos e no Reino Unido e nos países mais ligados a estas economias, em que ela se inscreve numa lógica decenal. É apenas por volta de 2018 que estes países podem encarar um retorno ao crescimento real.

 

Além disso, não se pode imaginar que a melhoria do fim de 2010 assinalará o retorno a um crescimento forte. A convalescença será longa. As bolsas, por exemplo, precisarão igualmente de uma década para retornar aos níveis do ano de 2007, se elas ali chegarem um dia. É preciso recordar que a Wall Street precisou de 20 anos para retornar aos seus níveis do fim dos anos 1920. Ora, segundo o LEAP/E2020 esta crise é mais profunda e durável que aquela dos anos 1930. Esta tomada de consciência da longa duração da crise vai progressivamente tornar-se clara junto às opiniões públicas no decorrer do próximo trimestre. E ela desencadeará imediatamente dois fenómenos portadores de instabilidade sócio-económica: o medo pânico do amanha e a crítica reforçada dos dirigentes do país.

 


O risco de colapso brutal do conjunto dos sistemas de pensão por capitalização

 

Finalmente, no quadro das consequências da crise que afectarão directamente dezenas de milhões de pessoas nos Estados Unidos, no Canadá, no Reino Unido, no Japão, na Holanda e na Dinamarca em particular [3] , é preciso integrar o facto de que a partir deste fim de ano de 2008 vão multiplicar-se noticias referentes a perdas maciças dos organismos que gerem activos destinados a financiar estas reformas. A OCDE estima e US$4 milhões de milhões as perdas dos fundos de pensão apenas para o ano de 2008 [4] . Na Holand [5] assim como no Reino Unido [6] , os organismos de vigilância dos fundos de pensão acabam de lançar gritos de alarme exigindo com urgência um acréscimo das quotizações obrigatórios e uma intervenção do Estado. Nos Estados Unidos, são anúncios múltiplos de aumento das contribuições e de diminuição dos pagamentos que são emitido a um ritmo crescente [7] . E é só nas próximas semanas que numerosos fundos vão poder fazer realmente o cálculo do que perderam [8] . Muitos iludem-se ainda sobre a sua capacidade de reconstituir o seu capital no momento de uma próxima saída da crise. Em Março de 2009, quando gestores de fundos de pensão, reformados e governos vão simultaneamente tomar consciência de que a crise vai durar, que ela vai coincidir com a chegada maciça dos “babyboomers” à aposentadoria e que as bolsas tem pouco probabilidade de recuperar antes de longos anos os seus níveis de 2007 [9] , o caos vai instalar-se neste sector e os governos vão se aproximar cada vez mais da obrigação de intervir para nacionalizar todos estes fundos. A Argentina, que tomou esta decisão há alguns meses, surgirá então como um precursor.

 

Todas estas tendências já estão em curso. A sua conjunção e a tomada de consciência pelas opiniões públicas das consequências que elas implicam constituirá o grande choque psicológico mundial da Primavera de 2009, a saber, que estamos todos mergulhados numa crise pior que aquela de 1929; e que não há saída possível da crise a curto prazo. Esta evolução terá um impacto decisivo sobre a mentalidade colectiva mundial dos povos e dos decisores e modificará pois consideravelmente o processo do desenrolar d crise no período que se seguirá. Com mais de ilusões e menos de certezas, a instabilidade sócio-política global vai aumentar consideravelmente.

 

Finalmente, este GEAB Nº 30 apresenta igualmente uma série de 13 perguntas/respostas a fim de ajudar de maneira quase interactiva os poupadores/investidores/decisores a melhor compreender e antecipar os desenvolvimentos a acontecer da crise sistémica global:

 

1- Esta crise será diferente das crise que anteriormente afectaram o capitalismo?
2- Esta crise será diferente da crise dos anos 1930?
3- A crise será tão grave na Europa e na Ásia quanto nos Estados Unidos?
4- As medidas empreendidas actualmente pelos Estados do mundo inteiro serão suficiente para jugular a crise?
5- Quais os principais riscos que pesam sobre o sistema financeiro internacional? E todas as poupanças são iguais face à crise?
6- A zona Euro constituirá uma verdadeira protecção contra os piores aspecto da crise? E o que poderia ela fazer para melhorar este estatuto?
7- O sistema de Bretton Woods (sob a sua última versão dos anos 1970) está em vias de afundar? O euro deve substituir o dólar?
8- O que se pode esperar do próximo G20 em Londres?
9- Pensa que a deflação seja actualmente a maior ameaça que paira sobre as economias mundiais?
10- Pensa que o governo Obama estará em condições de impedir os Estados Unidos de soçobrar na “Muito grande depressão americana”?
11- Em termos de moedas, para além da vossa antecipação referente à retomada da queda do dólar dos EUA ao longo de todos os próximos meses, pensa que a libra esterlina e o franco suíço sejam sempre moedas de estatuto internacional?
12- Pensa que o mercado dos CDS esteja a ponto de implodir? E quais seriam as consequências de um tal fenómeno?
13- A “bolha dos Títulos do Tesouro dos EUA” estará a ponto de explodir?


16/Dezembro/2008
Notas:
(1) Acerca desta crise é útil ler uma contribuição muito interessante de Robert Guttmann publicada no 2º semestre de 2008 no sítio web Revues.org , apoiado pela Maison des Sciences de l’Homme Paris-Nord..
(2) São as matérias-primas que começam a relançar o mercado do transporte marítimo internacional. Fonte: Financial Times, 14/12/2008
(3) Um vez que são os países que mais desenvolveram os sistemas de reforma por capitalização. Ver GEAB Nº 23 . Mas também é o caso da Irlanda. Fonte: Independent, 30/11/2008
(4) Fonte: OCDE , 12/11/2008
(5) Fonte: NU.NL , 15/12/2008
(6) Fonte: BBC , 09/12/2008
(7) Fontes: WallStreetJournal, 17/11/2008 ; Phillyburbs , 25/11/2008 ; RockyMountainNews , 19/11/2008
(8) Fonte: CNBC , 05/12/2008
(9) E não mencionamos sequer a influência da explosão da bolha dos Títulos do Tesouro dos EUA que também afectará brutalmente os fundos de pensão. Ver Q&A, GEAB N°30.

 

[*] Global Europe Anticipation Bulletin.

O original encontra-se em www.leap2020.eu

Este comunicado encontra-se em http://resistir.info/

 
Investidor comete suicídio em NY após perdas com caso Madoff

O gerente francês de investimentos Rene-Thierry Magon de la Villehuchet, 65, cometeu suicídio nesta terça-feira, devido às perdas que o “hedge fund” (categoria de investimentos mais arriscados) Access International Advisors, do qual era um dos fundadores, sofreu com a fraude do ex-presidente da Bolsa Nasdaq, Bernard Madoff. Villehuchet teria perdido cerca de US$ 1,4 bilhão, segundo reportagem de hoje do diário francês “La Tribune”.

A Access International vinham levantando fundos nos mercados europeus para aplicar no esquema de Madoff, segundo o jornal. De acordo com a reportagem, Villehuchet “não conseguiu lidar com a pressão após a revelação do escândalo”. “Ele tirou a própria vida nesta manhã, em seu escritório em Nova York”, diz o “La Tribune”, citando fontes próximas ao investidor.

Segundo parentes do investidor francês ouvidos pela reportagem, ele passou “dia e noite na última semana tentando encontrar uma saída para recuperar o dinheiro de seus investidores”, mas não resistiu à “caça por culpados” lançada na Europa.

Segundo o diário americano “The New York Times”, paramédicos responderam a um chamado vindo de um endereço que correspondia ao do escritório da Access International. Na semana passada, a empresa de Villehuchet informou em uma nota que a prisão de Madoff um “desenvolvimento chocante” do caso. O dinheiro foi perdido através do fundo Luxalpha, com sede em Luxemburgo, e incluía investidores como o banco suíço UBS.

Madoff foi preso sob a acusação de ser o responsável por um esquema de pirâmide conhecido como sistema Ponzi –pelo qual são oferecidos investimentos com atraentes rentabilidades, que são abonadas com o dinheiro fornecido pelos novos investidores.

Segundo o site especializado em finanças Bloomberg, Madoff, 70, pode estar envolvido com esquemas de fraude desde ao menos os anos 60. Na semana passada, o juiz federal Gabriel Gorenstein, da Corte do Distrito Sul de Nova York, anunciou que Madoff permanecerá sob prisão domiciliar a partir das 19h (22h em Brasília) e levará uma pulseira eletrônica que permita às autoridades saber onde está o tempo todo. Além disso, o juiz exigiu que a esposa do investidor, Ruth Madoff, entregue também seu passaporte, como seu marido já fez, para evitar que possam deixar os Estados Unidos.

“Podre”

Ontem o bilionário americano e empresário do setor imobiliário Donald Trump disse que Madoff é “podre” e “um desonesto completo”. “Muitas pessoas em Palm Beach [Flórida] foram roubadas por esse podre (…) Tem gente que deu a ele 100% de suas reservas, porque confiavam nele, confiavam em sua família, e agora estão tendo de vender suas casas para poder viver”, disse Trump.

Trump disse não ter perdido dinheiro com Madoff e que é impossível que Madoff tenha agido sozinho. “Eu não sei como ele poderia ter agido sozinho. [A empresa de Madoff] ocupava três andares de um grande edifício de escritórios. Como um homem poderia manipular tanto dinheiro sem que ninguém soubesse –sem que um grande número de pessoas soubesse sobre isso? Eu certamente pensaria que os filhos dele são culpados.”